Posts com a Tag ‘Publicidade’

Proposta indecente

sábado, 26 de junho de 2010

depravada1

Sempre que está no centro de algum escândalo (como o ditabrandagate e as HQs pornográficas, para citar os mais recentes), a Folha de S.Paulo convoca um verdadeiro estafe para “administrar” a crise, que inclui o departamento comercial e até o ombudsman (leia-se “ombídismã”), um canal de comunicação, supostamente independente, entre o jornal e seus leitores. O cargo surgiu no país na esteira de campanhas memoráveis da Folha, graças ao apelo publicitário que a novidade tinha na época (1989).

Escolhido dentre os empregados de confiança da casa, com o perfil para assumir uma função mais burocrática que jornalística, o ombudsman da Folha continua exercendo principalmente a função para o qual foi criado o de promover o jornal. Porém, na medida em que se esgotava a exploração de seu ineditismo e em que passava o entusiasmo inicial, seu papel e sua utilidade foram ampliados.

Em carta aberta ao sr. presidente da República, publicada na primeira página da histórica edição de 25 de abril de 1991, Otavinho, editor da Folha, dá uma amostra de como o ocupante do cargo é usado politicamente em defesa do seu empregador:

Não deixa de ser curioso que esteja sendo levada a julgamento, sob o silêncio acovardado e interesseiro de quase toda a mídia, a única publicação brasileira que mantém uma seção diária de retificações e que remunera um de seus profissionais pela exclusiva missão de criticar pública e asperamente as suas próprias edições.

Como se a simples nomeação de ombudsmen, e o “Erramos”, implicassem dispensa de controle externo, mais ou menos a mesma lógica que pauta o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar). Além de as avaliações enviadas pelos leitores serem importantes para a definição de estratégias do Grupo, o ombudsman, valendo-se do status de “representante dos leitores”, é usado para apaziguar os ânimos e estancar, em caso de emergências, a evasão de assinantes.

****

Quando liguei para o serviço de atendimento e informei que queria cancelar minha assinatura fui questionado sobre o motivo. Respondi que foi a matéria “O sexo como ele (não) é”, publicada na “Ilustrada” no último sábado, dia em que circula a Folhinha e, imediatamente, a ligação foi transferida para uma profissional especialmente treinada para contornar tal situação. Adivinhem a quem esta, após me pedir desculpas pelo acontecido, indicou que eu recorresse?

“Concordo com o senhor, a matéria não deveria ter sido publicada, principalmente considerando que o caderno incluía a ‘Folhinha’, e a responsabilidade está sendo investigada pela Direção do jornal”, disse a nova atendente. Perguntei o que a Folha faria para corrigir o erro e ela disse que eu poderia enviar uma carta para ser publicada no “Painel dos Leitores”, e também escrever para a ombudsman, “que tratará do assunto no domingo” (amanhã, 27/6). A atendente me ofereceu, ainda, trinta dias de jornal, “de cortesia”.

Declinei da oferta indecorosa, mas solicitei que a mesma fosse formulada por escrito, e com o timbre da Folha, para testar a boa-fé da empresa. Como era de se esperar, fui informado de que isso não seria possível. Também me foi negado o pedido de que não fossem enviados mais exemplares, os quais já estavam pagos, e concluímos o cancelamento.

O fato de o jornal admitir o erro e se desculpar já é alguma coisa, porém não o suficiente para a reparação do dano. Além disso, em um ato-falho a atendente se referiu à reportagem como “propaganda”, indicando que, afinal, a divulgação do material editado pela Peixe Grande talvez não tenha sido tão gratuita assim.

****

Quem recebeu o jornal e se sentiu ofendido pode acionar o Judiciário, com fundamento no Código de Defesa do Consumidor e no Estatuto da Criança e do Adolescente. Disponibilizaremos o modelo da ação, gratuitamente, ao leitor que solicitá-lo via email.


manoel@patoshoje.com.br

Abre-te, Sésamo!

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

superedu1

Puffing ― a hipérbole (o exagero) na publicidade ― é uma técnica legítima para fixação de uma mensagem, desde que as características atribuídas aos produtos ou serviços apresentados sejam verdadeiras.

Contudo, nem sempre o que você compra ou contrata corresponde àquilo que eles anunciam.

Na campanha de lançamento da caixinha do leite longa vida Cemil afirmava-se que o dispositivo de abertura do produto era muito mais prático que o método tradicional (faca ou tesoura), do qual continuo me valendo, até por considerá-lo mais higiênico.

Não sei se o problema era com o picote do lacre ou com o material utilizado, mas o fato é que eu não conseguia abrir a caixinha com a mesma facilidade que era mostrada na televisão. Tampouco encontrei alguém que pudesse fazê-lo ― pelo contrário: descobri pessoas que não conseguiam abri-la de jeito algum (ao menos, não sem destruí-la antes). Será que a tampinha utilizada na publicidade é diferente? Ou o Edu Guedes toma leite com anabolizantes?


****

Antes e depois dos desfiles de lingerie no programa de Luciana Gimenez, na Rede TV, dou uma espionada no Show do Milhão Jequiti, do SBT, uma das mais profícuas fontes de gafes da televisão brasileira.

Certa feita, foi questionado ao candidato o nome do filme cujo personagem usava uma máscara de hóquei. Comentando a questão, Silvio Santos disse achar que a resposta fosse O FANTASMA DA ÓPERA, lamentando não haver tal opção entre as quatro alternativas.

Tudo bem o apresentador nunca ter ouvido falar de Jason, personagem da série Sexta-feira 13, mas, convenhamos, o que a máscara usada pelo protagonista da obra máxima de Gaston Leroux tem a ver com HÓQUEI?!

Em outro equívoco tosco, o participante tinha de apontar entre quatro personagens de Walt Disney aquele que “foi criado sem som de voz”. Resposta: Pluto. A produção quis dizer FALA em lugar de “voz”, pois Pluto não é capaz de falar como o Pateta, apesar de ambos pertencerem à família dos canídeos. Mas é óbvio que Pluto pode emitir vozes, como latir, uivar, balsar, rosnar e ganir.

Dicionários trazem até um adendo intitulado VOZES DOS ANIMAIS. O Houaiss, por exemplo, registra vinte e duas vozes para o cachorro (na verdade, são catorze. O dicionário repetiu oito, apenas mudando a forma infinitiva para o particípio).

Sem falar que em praticamente todas as perguntas há erros de português. Será que a “TV dos Milionários” não tem dinheiro para contratar ao menos um professor de português?

Já quando se afirma que “o Canal de Suez se liga ao Mar Vermelho com o Mar Mediterrâneo” difícil saber se o problema é maior com o português ou com a geografia. O correto é que o Mar Vermelho e o Mediterrâneo são ligados pelo Canal de Suez, não este ao Mar Vermelho com o Mediterrâneo.

O telespectador fica sabendo, ainda, que “a tonelada é uma medida de peso”, que “esporádico é o mesmo que habitual” e que no folclóre [sic] brasileiro o boto “é um peixe que vira um bonito rapaz”.

Na verdade, tonelada é uma medida de MASSA (a unidade de peso é NEWTON, nome do formulador da lei da gravitação universal), esporádico é o mesmo que EVENTUAL (habitual é simplesmente um ANTÔNIMO!) e os botos não são peixes ― são MAMÍFEROS da ordem dos cetáceos (como as baleias e os golfinhos).

manoel@patoshoje.com.br

Anúncio de exposição induz público a erro

domingo, 28 de junho de 2009

 

 

 

a-floresta

A floresta - 1929 (Tarsila do Amaral)

  

 

Trazida a Patos de Minas pelo Museu Itinerante Rabobank, a exposição “A natureza das pessoas” reúne artistas de várias épocas, estilos e nacionalidades, dentre os quais Portinari, Munch, Van Gogh, Tarsila do Amaral e Monet.

 

Aberto ao público desde o último dia 3 no Pátio Central Shopping, onde permanecerá até 12 de julho, o Museu Itinerante também prestigia artistas locais. A entrada é gratuita.

 

Reproduções de telas, de fotografias e de instalações, divididas em quatro temas, convidam à reflexão sobre a intervenção do homem no meio ambiente. Mas quem leu o anúncio da exposição pode ter tido uma grande decepção ao visitá-la.

 

De acordo com a referida peça, ilustrada por “A primavera”, do pintor italiano Giuseppe Arcimboldo (1527 — 1593), o acervo é composto de “40 OBRAS PERTENCENTES AOS PRINCIPAIS MUSEUS DO MUNDO”, dando a entender que se trata de obras originais, idéia reforçada pela frase “UM PRIVILÉGIO PODER VISITÁ-LAS EM UM ÚNICO LUGAR, BEM PERTINHO DE VOCÊ!”.

 

Convenhamos, a mera possibilidade de estar diante de imagens digitalizadas, coladas em superfícies de plástico, está longe de ser um “privilégio”.

 

A chancela de curadora do Museu de Arte Contemporânea da USP, responsável pelo suposto acervo, completa o equívoco a que o público é induzido.

 

As cópias contêm informações sobre as obras originais, como dimensões e onde podem ser vistas. Sem dúvida, não há intenção por parte dos organizadores de apresentar falsificações de obras de arte, apenas reproduzi-las e divulgá-las.

 

Iniciativa digna de nosso apoio, mas que não justifica a omissão no anúncio de informações explícitas nesse sentido.

 

****

 

Para a identificação dos corpos de passageiros e de tripulantes do Airbus da Air France as buscas foram encerradas ontem —, o Jornal Nacional informou que são utilizadas “amostras de sangue, saliva e fios de cabelo dos parentes de primeiro grau”.

 

Ainda segundo o telejornal, “as amostras são cedidas por pais, filhos e irmãos dos passageiros”, informação que contradiz a anterior: diferentemente do que muitos supõem, irmãos têm entre si parentesco de SEGUNDO GRAU, não de primeiro.

 manoel@patoshoje.com.br

 

Consumidor patense ganha nova arma contra abusos

domingo, 10 de maio de 2009

lei-15-minutos

Um banco “todo seu”, em anúncio comemorativo do 15 de março ― Dia Mundial dos Direitos do Consumidor  ― se diz comprometido “a enxergar todo cliente ou futuro cliente, antes de tudo, como cidadão”. Enquanto isso, em sua agência local os clientes ficam amontoados à espera de atendimento. Um cenário deplorável e totalmente diferente daquele que as propagandas mostram. Responsabilidade social é isso?

 

Em apenas um ano o Banco do Brasil cresceu 74%, fechando 2008 com um lucro recorde de R$ 8,8 bilhões. O Itaú, que praticamente dobrou em 2007, fechou 2008 com um lucro de R$ 7,71 bilhões, e o Bradesco registrou um saldo de R$ 7,62 bilhões no balanço do mesmo período.

 

Preocupados apenas em aumentar ainda mais seus lucros bilionários, os banqueiros pouco investem em condições dignas de trabalho para seus funcionários, que vivem em um ambiente de constante estresse e ainda acabam levando a culpa pelo péssimo atendimento nas agências. A fim de mudar essa situação, o Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Bancários de Patos de Minas e Região lançará, na próxima quarta-feira (13), em seu auditório, um pequeno manual com 28 páginas esclarecendo os principais direitos do cidadão que necessita de serviços bancários.

 

Recentemente, tive de pagar um boleto no “Banco do Planeta” e fui barrado na entrada porque minha pasta-fichário não cabia no porta-volumes que fica na lateral do detector de metais. O guarda disse que nada poderia fazer, agindo como se fosse proibido ou censurável o porte de fichários. Como apenas aquele banco estava credenciado a receber o título, solicitei a presença de um gerente, que só permitiu minha entrada depois que abri a pasta e mostrei-lhe meus pertences. 

Lá dentro, esperei 90 minutos na fila, seis vezes o tempo máximo permitido pela lei municipal 5.768, de autoria do vereador Bosquinho, em vigor desde 2006  ― que limita esse prazo a 15 minutos, prorrogáveis por mais 10 antes e depois de feriados prolongados, ou por mais 15 em dias de pagamento de funcionários públicos. Falam de “responsabilidade socioambiental” mas não cuidam da própria casa. A máquina de senha, que comprovaria o tempo de espera, estava desligada ou não funcionava, e não havia no local o número de telefone para reclamação ao órgão fiscalizador, tudo em desconformidade com a referida lei. O Guia do usuário de agências bancárias explica o que podemos fazer nessas situações.

O Promotor de Justiça José Carlos de Oliveira Campos Júnior aproveitará o lançamento para determinar aos representantes dos bancos uma data definitiva para que todos os estabelecimentos sejam regularizados, sob pena de multas diárias e até interdição.

De acordo com Campos Júnior, a conscientização dos usuários é muito importante para o trabalho do Ministério Público, e elogiou a iniciativa do Sindicato de produzir e distribuir as cartilhas. “De posse dessas informações, o consumidor poderá contribuir com os órgãos de fiscalização no esforço de fazer com que as agências sejam estruturadas para proporcionar um melhor atendimento”, diz .

Serão distribuídos gratuitamente 2.500 exemplares, e uma versão eletrônica da obra também estará disponível para download neste portal a partir do dia 13.

manoel@patoshoje.com.br

 

 

Pseudoliquidações

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

 pseudoliquidacoes-patos-blog

 

É inacreditável como grandes redes de móveis e eletrodomésticos desrespeitam e humilham seus clientes impunemente. Anunciam SUPERSALDÕES incríveis, preços imperdíveis, descontos de até 90% (noventa por cento!) em todo o estoque! Mas quando conferida de perto a realidade é bem diferente. A imprensa é omissa, senão conivente, por tratar de interesses de grandes anunciantes, como ocorre com os constantes abusos cometidos por bancos e operadoras de telefone.

Embora o cidadão, não raro, seja vítima do próprio consumismo irracional e do hábito de deixar tudo para a última hora, cabe ao poder público proteger a população punindo os EMBUSTES, mais freqüentes nos finais de ano, quando parte das “ofertas” se refere a móveis quebrados, eletrodomésticos com defeito, faltando acessórios etc. “Esses detalhes não são mostrados na propaganda porque o tempo é muito curto e 30 segundos na TV custam os olhos da cara”, justifica o vendedor de um magazine. Outro detalhe é que nos impressos dessa loja, especificamente, apesar de amplos espaços para informações, também não havia qualquer menção a refugos.

Noutro panfleto não se lê a data da promoção, mas a expressão “somente amanhã”, certamente preparado para ser distribuído de modo a coincidir com o dia da promoção do concorrente, como de fato sempre “coincide”. Apesar do “somente amanhã”, em menos de 24 horas já eram anunciados novos “saldões”, desta vez a partir das 9h da noite.

Existem as propagandas que são exemplo de seriedade e correção, assim como lojas que primam pelo respeito aos direitos do consumidor, mas muita gente cai em arapucas. Inclusive muita gente idosa, que começa a estender seu colchão na calçada já na tarde do dia anterior e passa a madrugada na fila sonhando com a nova mesa de cozinha ou um tanquinho de lavar roupas. Nas portas das lojas, ambulantes contratados pela casa servem pipoca e cafezinho noite adentro.

Quando as portas finalmente se abrem - com quase uma hora de atraso em alguns casos, sem ser dada qualquer satisfação - a cena lembra a ação de saqueadores. Após quase se matarem pisando uma nas outras na disputa lá dentro, as pessoas saem carregando tanquinhos, televisores e até geladeiras nas costas. Afinal, o frete é por conta do consumidor, que sem saber pagou pelos produtos os mesmos preços com que eram vendidos na véspera, ou às vezes até um pouco mais. Fossem comprados antes, ainda
seriam entregues em casa.

De repente, ofertas-relâmpago ecoam pelo sistema de som: “Aproveitem! Sanduicheira Vicini de R$ 150,00 por apenas R$ 29,90! Corra antes que acabe!”. Máquinas de cortar cabelo, da mesma marca, “de R$ 175,00 por apenas R$ 34,90!!”. Os preços originais, óbvio, são fantasmas. Uma sanduicheira e um aparelho de cortar cabelo da marca citada custam em média R$ 40,00 e R$ 45,00, respectivamente. Um superfaturamento de cerca
de 250%.

Como o produto desejado estava quebrado ou se esgotou em 40 segundos, para não sair de mãos abanando, sentindo que foi totalmente inútil levantar às 4h da manhã, o humilde cidadão acaba visitando outras lojas, onde a maratona se repete e ele se conforma em levar qualquer coisa com o dinheiro economizado para o “evento”. Minados física e psicologicamente, muitos acreditam ter feito um excelente negócio, mesmo que a recompensa por todo o esforço se resuma a alguns trocados a menos no liquidificador.

manoel.almeida@estadao.com.br

Saúde e marketing

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

dsc06799

A necessidade de conquistar a preferência do consumidor faz com que os produtos quase sempre sigam o modelo ditado pelas marcas líderes e fiquem cada vez mais parecidos entre si. A esse efeito os publicitários dão o nome de ME TOO, um eufemismo para CÓPIA ou MESMICE. Nesse cenário desalentador, inovações são vitais para uma marca destacar-se da concorrência, daí a renovação periódica de rótulos e embalagens, além de investimento em novas tecnologias.

O design de embalagem também deve preocupar-se com segurança e assepsia. Entretanto, muitas vezes a ênfase é dada apenas a aspectos secundários, como ergonomia e aparência. No ano passado, uma cooperativa de laticínios local trouxe da suíça uma embalagem cartonada, supostamente “mais fácil de pegar e servir” e “mais bonita para colocar na mesa”, conforme destacava maciça divulgação midiática.
O lançamento do formato seria ainda ótima oportunidade para a empresa européia testar no Brasil uma “tampa exclusiva, mais fácil de abrir e fechar” - o sistema de abertura chamado CombiLift (foto). A novidade era simplesmente uma versão plástica do já tradicional anel de alumínio das latinhas de cerveja e refrigerante, com um inconveniente extra: não é descartado após o rompimento do lacre e o conteúdo do invólucro, quando entornado, tem contato direto com a face externa da tampinha, exposta a todo tipo de bactérias a que as mercadorias ficam sujeitas após o envase - seja no transporte, seja na estocagem nos pontos-de-venda, seja na despensa do consumidor.

A indústria poderia ter optado por soluções mais simples e eficazes, como tampinhas rosqueadas, ou investido parte dos milhões gastos em campanhas na correta informação sobre os riscos de contaminação, bem como sobre a higienização dos recipientes antes do consumo.

***

Menos de 24 horas após o Patos Hoje alertar para o aumento da participação de crianças e adolescentes na comercialização de drogas em Patos de Minas, duas pessoas são atacadas por menores e esfaqueadas na fila do Trenzinho do Papai Noel.

Tanto o uso intenso de crianças pelos traficantes, quanto a barbárie contra o segurança e o policial no dia 20, têm a ver com o critério biológico adotado pela legislação brasileira, que privilegia infratores menores de 18 anos, independentemente de sua capacidade de discernimento. Resultado: a lei, que deveria inibir atos criminosos, acaba por incentivá-los.

manoel@patoshoje.com.br

Horsepower

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

horsepower

“Ben-Hur”, superprodução baseada em romance escrito no século 19 por Lew Wallace, completa 50 anos em 2009. O épico, estrelado pelo ator Charlton Heston, mantém-se vigoroso.

Condenado por um crime que não cometeu, o nobre e respeitado Judah de repente se vê reduzido à escravidão, acorrentado nas galés. Libertado pelo próprio comandante da esquadra, escapa da morte certa para, em seguida, ser recebido pelo imperador romano como herói. Descobre, todavia, que toda sua família fora destruída.

William Wyler tinha plena consciência de que dirigia um clássico. Temendo que o estúdio reaproveitasse os cenários em outras produções, o megalomaníaco diretor teria ordenado a destruição de centenas de sets após as gravações, a fim de que sua obra-prima permanecesse única. Ave, César!

Há várias sequências memoráveis, como as paradas militares das Legiões, com mais de 100.000 figurantes, e o arrebatador encontro com Jesus de Nazaré.

A mais famosa, com destaque nas embalagens do produto e aparentemente OBRIGATÓRIA em todas as citações (bem como a referência aos onze Oscar), é a “corrida de bigas” ao final.

Em Jerusalém, o aristocrático judeu Ben Hur sofre nas mãos dos romanos por defender o cristianismo e enfrenta comandante romano, durante EMOCIONANTE CORRIDA DE BIGAS (Correio Braziliense).

“LONDRES LEVARÁ CORRIDA DE BIGAS DE ‘BEN-HUR’ AOS PALCOS”, divulgou o serviço de notícias BBC Brasil na semana passada. O grandioso espetáculo, encenado ao ar livre, foi apresentado pela primeira vez há dois anos, em Paris (foto).

O curioso é que as famosas “bigas” não aparecem em NENHUMA CENA!

Talvez porque tais veículos têm, geralmente, duas rodas, é que seja feita a associação com o prefixo “bi”. Porém, a classificação deve ser de acordo com as unidades de “potência”: biga é puxada por um par de cavalos; triga, por três cavalos. Os carros de corrida reconstituídos no filme são QUADRIGAS.

As parelhas vencedoras eram decapitadas logo após as competições, em oferecimento aos deuses, costume também ignorado nas versões hollywoodianas .

Note que a resenha do Correio ainda comete um anacronismo. A religião cristã — que deu origem à Igreja Católica, sucessora do Império Romano — só surge depois da morte de seu fundador. Se este e o personagem interpretado por Heston eram contemporâneos, não haveria como o aristocrata ser perseguido por “defender o cristianismo”, então inexistente.

manoel@patoshoje.com.br

Lucro acima de tudo

terça-feira, 11 de novembro de 2008

patosblog-lucro-acima-de-tudo1

Após as restrições à propaganda de cerveja anunciadas pelo Conselho de Auto-regulamentação Publicitária (Conar), a Associação Brasileira de Agências de Publicidade (Abap) quer convencer a sociedade de que sua causa é em defesa da “liberdade de expressão” e do direito do consumidor “gostar ou não gostar desta ou daquela publicidade”, “de se informar e de formar a sua opinião”.

Desde quando a proteção à saúde pública virou ato de censura? Ora, é possível fazer a apologia da compra de armas de fogo e do uso de drogas ilícitas seguindo o mesmo “raciocínio”. A distorção é tão desavergonhada que os publicitários chegaram ao ponto de comparar anúncios de cerveja com fabricação de abridores de garrafas:

QUEREM PROIBIR
A PUBLICIDADE
DE CERVEJAS NO BRASIL.

É O MESMO QUE PROIBIREM
A FABRICAÇÃO DE ABRIDORES
DE GARRAFAS NO BRASIL.

Quando voltada para o mal, a “criatividade” parece não ter limites. Nem ao menos é verdade que querem “proibir a publicidade de cervejas”, mas apenas a direcionada ao público jovem ou apelos com conotações sexuais (foto). Um desses anúncios faz referência ao “CARA QUE INVENTOU O SUTIÔ, desconhecendo-se que essa peça do vestuário fora patenteada por uma jovem norte-americana, Mary Jacob.

O que os caras que inventam essas pérolas não dizem é que sua única preocupação é com a conseqüente redução das verbas milionárias que o setor de bebidas alcoólicas destina à publicidade e eles querem continuar lucrando, mesmo que seja às custas de vidas alheias.

Mesmo que para isso seja preciso associar bebidas alcoólicas ao bem-estar e à saúde, e depreciar o público feminino, tratando-o como mero objeto sexual. Ainda que tenham de “provar” que sua atividade é ineficaz para incentivar o consumo desses produtos! Mas se a publicidade não serve para isso, ela serve para quê, então?

Por ocasião do lançamento da Política Nacional sobre o Álcool (PNA), o publicitário Francesc Petit, sócio da DPZ, publicou uma carta no Jornal Folha de S. Paulo defendendo a publicidade de cigarro e álcool (”um santo remédio”). Vale a pena conferir o libelo na íntegra:

Há muitos anos, os publicitários vêm sendo acusados de serem responsáveis por esse vício maldito. Aliás, agora está na moda os políticos pisotearem a classe publicitária proibindo, com todo tipo de pretexto, anúncios com mulheres seminuas, crianças em produtos de adultos, desenho animado para propaganda dirigida aos adultos. Já proibiram a propaganda de cigarros e agora é a vez das bebidas alcoólicas. Alguns anos atrás, participei de um debate no Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo a convite do meu grande amigo doutor Paulo Vaz Arruda. No debate, além dos jovens psiquiatras, estavam presentes vários alcoólatras e familiares, todos eles unânimes bebedores de pinga da mais barata que existe, produzida pelos milhares de alambiques clandestinos que existem nos arredores de São Paulo e no resto do Brasil. Nas minhas palestras aos doutores, mostrei que a propaganda não induz ninguém a consumir produtos que façam mal à saúde, pois as bebidas alcoólicas que aparecem na televisão e na mídia impressa são produzidas com todos os cuidados e feitas por especialistas com renome internacional. É só lembrar o debate sobre alcoolismo no Congresso da União Européia, onde não consideravam o vinho uma bebida alcoólica, pois é comprovado que, consumido com moderação, é um santo remédio. É óbvio também que é para proteger um setor importantíssimo para os países produtores de vinho, que tanto prestígio traz para França, Itália, Espanha, entre outros.

A ambição, o cinismo e a falta de escrúpulos não têm fim.

manoel@patoshoje.com.br

Novo endereço

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

novo-endereco-blog-patoshoje1 

 Lê-se a seguinte “charada” na caixa de um brinquedo pretensamente didático:

SOU A RESIDÊNCIA DO PRESIDENTE DOS E.U.A!

Pela embalagem, tem-se uma idéia do conteúdo: a fachada que ilustra a assertiva não é da Casa Branca, mas do Capitólio, sede do poder legislativo do governo norte-americano (Senado e Câmara dos Representantes)…

****

Mal o acordo ortográfico fora assinado pelo (quem diria?) presidente Lula e já se encontravam nas bancas manuais práticos sobre a tímida reforma. Como o Guia da Reforma Ortográfica (On Line Editora), que se propõe a “dissipar eventuais dúvidas sobre a nova forma de escrever”. Logo na capa, porém, lê-se a seguinte chamada:

UM MANUAL PRÁTICO PARA VOCÊ CONHECER E SE ADAPTAR ÀS NOVAS REGRAS DA LÍNGUA PORTUGUESA.

Pelo que se sabe, a reforma não alterou a regência do verbo “conhecer”, e mesmo se o fizesse, ela só entraria em vigor a partir de 2009. Logo, indevida é a ocorrência da crase.

Igual impropriedade é bastante comum em enquetes do tipo ‘você é contra ou a favor da cota para negros?”, “você é contra ou a favor da Lei Seca?” etc. Será que mesmo os mais sensíveis poderiam ser contra “DA pena de morte” ou contra “DO aborto de anencéfalos”?

Ninguém jamais poderia ser contra ou a favor DO que quer que seja, mas contra alguma coisa ou a favor DE outra; favorável ou contrário A alguma coisa. Da mesma forma, o mais adequado à chamada norma culta é “…para você conhecer AS novas regras e adaptar-se a elas”, que de fato soa bem melhor.

Apesar da eufonia, expressões bastante exploradas traem os ouvidos mais afinados e experientes. O mineiro Eduardo Sabbag, autor de “Redação Forense” (livro de cabeceira de Fernandinho Beira-Mar), decodificando o artigo 129 do Código Tributário Nacional (CTN) a fim de “massacrar os testes” de concurso, ditou para os alunos:

As normas afetas a responsabilidade tributária serão aplicáveis, quanto ao momento da formalização do CT (crédito tributário), antes, durante e após o lançamento.

“Antes” exige a preposição “de” (”antes DO lançamento”), diferentemente de “durante” e “após” (”durante o lançamento”, “após o lançamento”). A parte final ficaria mais consentânea com a gramática normativa se redigida do seguinte modo (ou equivalente): “As normas serão aplicáveis durante e após o lançamento ou antes DELE”.

O uso de “depois” em lugar de “após” talvez resulte em forma mais didática: “As normas serão aplicáveis antes e depois DO lançamento ou durante o mesmo”.

Outra possibilidade é a substituição também da palavra “durante”, servindo a preposição aos três termos: “As normas serão aplicáveis antes, depois e NO DECORRER do lançamento”.

manoel@patoshoje.com.br

Estranho no ninho

domingo, 12 de outubro de 2008

estranho-no-ninho-blog-patoshoje 

Conhecida marca de água sanitária estampa em seu rótulo os seguintes atributos: “Alveja. Desinfeta. Bactericida”.

A menos que exista o verbo BACTERICIDAR, é desejável que todos os elementos pertençam à mesma classe gramatical: “Alvejante. Desinfetante. Bactericida.”

Trata-se do mesmo problema na expressão “Venda, troca, financia”. Ou alteramos o primeiro termo para VENDE, ou o terceiro para FINANCIAMENTO.

****

Não passou despercebida a palavra SÚPER que intitula a coluna de 8 de setembro. “Gostaria de informá-lo que a palavra ‘SUPER’, mesmo referindo-se ao nome da revista não tem acento!”, asseverou uma leitora. “Não se acentuam graficamente os prefixos paroxítonos terminados em ‘r’”, assinalou outro.

Na verdade, independentemente de sua terminação, prefixos paroxítonos NUNCA são acentuados (super, multi, anti, nuper…). Ao contrário dos prefixos monossílabos e oxítonos, cujas sílabas tônicas devem seguir as regras de acentuação gráfica.

Ocorre que palavras de outras classes gramaticais, contudo, podem ser empregadas como substantivos, a exemplo de SÚPER no referido título. É a chamada nominalização. SÚPER (seja substantivo, seja adjetivo) recebe acento gráfico pelo mesmo motivo que “revólver”, “câncer”, “mártir” e “cadáver”: vocábulo paroxítono terminado em “r”.

No plural, não obstante tais palavras deixarem de ser paroxítonas, o acento é mantido, agora por força da regra que determina o sinal gráfico em todas as proparoxítonas: “revólveres”, “cânceres”, “mártires”, “cadáveres” e SÚPERES.

Em virtude da nominalização é que há “porque” e “porquê”. O primeiro não recebendo acento por tratar-se de conjunção. Já o segundo (significando “razão”), por ser substantivo oxítono terminado em “e”, é acentuado. Note que quando substitui “multinacional”, MÚLTI também recebe acento. Plural: MÚLTIS.

manoel@patoshoje.com.br