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Proposta indecente

sábado, 26 de junho de 2010

depravada1

Sempre que está no centro de algum escândalo (como o ditabrandagate e as HQs pornográficas, para citar os mais recentes), a Folha de S.Paulo convoca um verdadeiro estafe para “administrar” a crise, que inclui o departamento comercial e até o ombudsman (leia-se “ombídismã”), um canal de comunicação, supostamente independente, entre o jornal e seus leitores. O cargo surgiu no país na esteira de campanhas memoráveis da Folha, graças ao apelo publicitário que a novidade tinha na época (1989).

Escolhido dentre os empregados de confiança da casa, com o perfil para assumir uma função mais burocrática que jornalística, o ombudsman da Folha continua exercendo principalmente a função para o qual foi criado o de promover o jornal. Porém, na medida em que se esgotava a exploração de seu ineditismo e em que passava o entusiasmo inicial, seu papel e sua utilidade foram ampliados.

Em carta aberta ao sr. presidente da República, publicada na primeira página da histórica edição de 25 de abril de 1991, Otavinho, editor da Folha, dá uma amostra de como o ocupante do cargo é usado politicamente em defesa do seu empregador:

Não deixa de ser curioso que esteja sendo levada a julgamento, sob o silêncio acovardado e interesseiro de quase toda a mídia, a única publicação brasileira que mantém uma seção diária de retificações e que remunera um de seus profissionais pela exclusiva missão de criticar pública e asperamente as suas próprias edições.

Como se a simples nomeação de ombudsmen, e o “Erramos”, implicassem dispensa de controle externo, mais ou menos a mesma lógica que pauta o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar). Além de as avaliações enviadas pelos leitores serem importantes para a definição de estratégias do Grupo, o ombudsman, valendo-se do status de “representante dos leitores”, é usado para apaziguar os ânimos e estancar, em caso de emergências, a evasão de assinantes.

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Quando liguei para o serviço de atendimento e informei que queria cancelar minha assinatura fui questionado sobre o motivo. Respondi que foi a matéria “O sexo como ele (não) é”, publicada na “Ilustrada” no último sábado, dia em que circula a Folhinha e, imediatamente, a ligação foi transferida para uma profissional especialmente treinada para contornar tal situação. Adivinhem a quem esta, após me pedir desculpas pelo acontecido, indicou que eu recorresse?

“Concordo com o senhor, a matéria não deveria ter sido publicada, principalmente considerando que o caderno incluía a ‘Folhinha’, e a responsabilidade está sendo investigada pela Direção do jornal”, disse a nova atendente. Perguntei o que a Folha faria para corrigir o erro e ela disse que eu poderia enviar uma carta para ser publicada no “Painel dos Leitores”, e também escrever para a ombudsman, “que tratará do assunto no domingo” (amanhã, 27/6). A atendente me ofereceu, ainda, trinta dias de jornal, “de cortesia”.

Declinei da oferta indecorosa, mas solicitei que a mesma fosse formulada por escrito, e com o timbre da Folha, para testar a boa-fé da empresa. Como era de se esperar, fui informado de que isso não seria possível. Também me foi negado o pedido de que não fossem enviados mais exemplares, os quais já estavam pagos, e concluímos o cancelamento.

O fato de o jornal admitir o erro e se desculpar já é alguma coisa, porém não o suficiente para a reparação do dano. Além disso, em um ato-falho a atendente se referiu à reportagem como “propaganda”, indicando que, afinal, a divulgação do material editado pela Peixe Grande talvez não tenha sido tão gratuita assim.

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Quem recebeu o jornal e se sentiu ofendido pode acionar o Judiciário, com fundamento no Código de Defesa do Consumidor e no Estatuto da Criança e do Adolescente. Disponibilizaremos o modelo da ação, gratuitamente, ao leitor que solicitá-lo via email.


manoel@patoshoje.com.br

Não furtarás

sábado, 1 de agosto de 2009

 

No mundo inteiro, é comum gente de todas as religiões desvirtuar a palavra e o nome de Deus, utilizando-os para fins nada divinos. Políticos empregam-nos em seus discursos para iludir e arrebanhar eleitores, empresários chegam a adotá-los em slogan para fidelizar clientela. Mas fato recentemente noticiado na capa do jornal Folha Patense é o cúmulo do sacrilégio:

“RAPAZ USA ORAÇÃO PARA ENTRAR E ROUBAR RESIDÊNCIAS”

Imediatamente, vem-nos à mente o flagrante de um bandido posto de joelhos ante o oratório, pedindo a santa proteção antes de partir para mais um dia de delinquências e iniquidades.

O subtítulo, porém, logo esclarece: “Ele distraía as vítimas com pregação”. Soberboso da própria criatividade, o redator repetiu a manchete na página interna.

Os verbos entrar e roubar, todavia, têm regências diferentes. No caso, o primeiro é transitivo indireto (preposicionado); o segundo, transitivo direto (sem preposição). Se o rapaz entrou em residências, onde está a preposição (em) que liga o verbo (entrar) a seu objeto (residências)?

A frase que consta no jornal é um desatino idêntico a “rapaz usa oração para roubar e ENTRAR RESIDÊNCIAS”, forma admissível apenas em textos literários.

De acordo com o constante no corpo da reportagem, a manchete ainda traz outra incorreção (a pontuação é um caso à parte; na Folha, você sabe, eles não têm noção alguma de como usar pontos e vírgulas corretamente):

 

Conversando levava as vítimas para um cômodo da casa e as distraía enquanto isso, a companheira tirava os objetos menores e fáceis de serem carregados.

 

Sucede que o crime de ROUBO se configura quando o autor subtrai um bem mediante violência física ou ameaça grave contra as vítimas (Código Penal, art. 157), o que não se verifica na ação do falso pregador.

 

A norma penal condizente ao fato noticiado (a denominada subsunção) é o artigo 155, §4º, incisos II e IV: FURTO QUALIFICADO (subtração de bem mediante fraude, com a participação de mais de uma pessoa).

 

Uma forma simples e correta para a manchete da Folha Amadorense seria FALSO PREGADOR FURTAVA RESIDÊNCIAS. Que o mesmo entrava nas residências já está implícito, sendo desnecessário dizê-lo. 

 

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A expressão “DENÚNCIA ANÔNIMA”, pela qual a mídia reporta ao episódio envolvendo o deputado estadual Elmiro Nascimento, não é apropriada.

Tecnicamente, DENÚNCIA é a acusação oferecida pelo Ministério Público nos crimes de ação penal pública. Jamais será anônima. Nos crimes de ação penal privada, a peça de acusação se chama QUEIXA-CRIME, na qual o ofendido (querelante) também deve estar plenamente identificado.

Nesta semana, a Câmara de Dirigentes Lojistas de Patos de Minas (CDL) abriu espaço para Elmiro esclarecer a acusação ―  contratações indevidas de assessores pagos pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais.  A entidade realiza reuniões públicas todas as terças-feiras, em sua sede.

Na oportunidade, Elmiro se disse agradecido pelo convite e afirmou ser normal ter assessores parlamentares trabalhando em Patos de Minas, sua base de atuação, e os que porventura prestam serviço à sua empresa são registrados de acordo com a legislação trabalhista, que permite a contratação de uma pessoa por vários empregadores.

O deputado se diz vítima de “perseguição política” e acusou, sem nominar, um site patense noticioso, que estaria denegrindo sua imagem com informações inverídicas. Ao colunista o deputado disse que se referia ao Patos Hoje.

O jornalista Mauricio Rocha, responsável pelo portal, não estava presente à reunião, mas negou haver qualquer interesse de sua parte em denegrir a imagem de alguém. A pedido do deputado, Mauricio chegou a retirar do site reprodução do jornal Estado de Minas sobre a suposta irregularidade na contratação dos assessores. 

manoel@patoshoje.com.br

Silvio Santos proclama a independência de Roma

domingo, 19 de julho de 2009
quiz-show4

Foto: Roberto Nemanis/SBT

A volta do Show do Milhão à TV é parte de uma estratégia para alavancar o ibope de “Vende-se um véu de noiva”, de Íris Abravanel, dona do SBT. Durante a novela, são exibidos os códigos com os quais o telespectador poderá concorrer a uma vaga no programa. Para concorrer ao prêmio, é necessário que ele seja sorteado novamente.

Como nas versões anteriores, o programa promete ser um show de estupidez e de desinformação, a começar pelo apresentador, o que em grande parte explica o sucesso de audiência.

No último programa, o candidato a milionário deveria apontar a resposta à pergunta “O PAPA É O BISPO CATÓLICO ROMANO DE QUAL ESTADO?” entre as seguintes alternativas:

1-Nova Iorque

2-Londres

3-Paris

4-Roma

Além de rebaixar o Sumo Pontífice a bispo, a produção julgou correta a opção quatro. Assim, em qualquer das acepções do termo “Estado”, suscita-se a seguinte questão: qual a capital de Roma?

A menos, claro, que considerássemos Roma uma cidade-estado, como Mônaco e a CIDADE DO VATICANO esta, aliás, a resposta correta, que não constava entre as alternativas. Em qualquer caso, porém, a capital italiana permaneceria uma incógnita.

Dos quatro opções, apenas Nova Iorque é nome de um Estado, no sentido de unidade política da república federativa.

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Apesar de ainda não restar “provado” que a ficha de Dilma Rousseff publicada na Folha de S.Paulo seja uma “fraude” e de os críticos teimarem em afirmar o contrário, as tentativas do jornal de minimizar as evidências são mais que suficientes para demonstrar a má-fé do diário paulistano.

Em subtítulo da reportagem “Dilma contrata laudos que negam autenticidade de ficha“, publicada no último dia 28, o jornal destacou:

“PERITOS NÃO SE BASEARAM NO JORNAL IMPRESSO”

Como se fosse melhor se os peritos tivessem avaliado a reprodução da imagem que o jornal teria recebido por email, ou seja, como se pudesse ser tirada qualquer conclusão a partir da cópia de uma cópia!

No último parágrafo da reportagem, a própria Folha diz que nem mesmo o arquivo em que ela se baseou prestar-se-ia a tal análise:

A Folha tem procurado checar a autenticidade da ficha. Foram contatados três peritos de larga experiência na análise de documentos e um especialista em imagens digitais. Todos disseram que teriam dificuldades em emitir um laudo, pois necessitavam do original da ficha, que nunca esteve em poder da reportagem. Disseram que a análise de UMA IMAGEM CONTIDA NUM E-MAIL NÃO SERIA SUFICIENTE PARA IDENTIFICAR UMA EVENTUAL FRAUDE.

Leia-se: um documento recebido por email, sem sequer indicação de data e de origem, ou autenticidade comprovada ou comprovável, não é suficiente para justificar sua divulgação em um veículo sério e que tenha um mínimo de compromisso com a verdade.

manoel@patoshoje.com.br

Hipocrisia atômica

sexta-feira, 10 de julho de 2009

 

 

vitimadehiroshima

 

 

A mídia mundial se disse alarmada com os testes nucleares realizados recentemente pela pobre Coreia do Norte, como se os países ricos não tivessem arsenal bastante para destruir o planeta dizem alguns milhares (ou meras centenas) de vezes. Uma a mais ou a menos faria diferença?

 

Eis a chamada da Inominável, via internet:

 

O PERIGO MAIOR: ARMAS NUCLEARES EM MÃOS ERRADAS - LEIA NA VEJA

 

Ou seja, as armas de destruição em massa estariam em “mãos adequadas” se continuassem monopólio de norte-americanos e asseclas, ditos civilizados.

 

A reportagem de capa realmente revela, sim, o quanto é perigoso deixar o poder dos meios de comunicação em mãos erradas.

 

De acordo com o semanário, Kim Jong-il, o ditador norte-coreano, “é uma figurinha ridícula, que usa sapatos com salto plataforma para compensar a baixa estatura”, e quando o arsenal nuclear estava apenas nas mãos da então União Soviética e dos EUA “pelo menos era possível acreditar que o gatilho nuclear estava em mãos inimigas responsáveis”.

 

Isso mesmo, ”responsáveis”, logo OS PAIS do famigerado artefato, os civilizadíssimos EUA, que até hoje foram os únicos a perpetrar ataques terroristas com bombas nucleares, resultando na morte instantânea de mais de DUZENTOS MIL seres humanos  em sua maioria idosos, mulheres e crianças! Outros tantos agonizaram, envenenados pela radiação.

 

Jong-il é louco; já Harry Truman, que ordenou os bombardeios em Hiroshima (foto) e em Nagasaki, era um estadista.

 

manoel@patoshoje.com.br

 

 

Guerra no Olimpo

sábado, 25 de abril de 2009
      guerra-do-limbo

Foto: Valter Campanato

Oportuna e veemente a reprovação de Joaquim Barbosa à presença ostensiva do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) na mídia, e foi esta que veio em socorro do “capo”. Salvo as exceções de praxe, o homérico embate repercutiu de forma tendenciosa nos meios de comunicação.

Editorial do Estadão intitulado “Falta de compostura” afirma que “Joaquim Barbosa perdeu a compostura” e “fez a primeira acusação grave ao ministro Gilmar Mendes”, quando na realidade fora este quem primeiro partiu para os ataques pessoais dizendo que Barbosa “não tem condições de dar lição de moral”.

O diário até fomentou uma reprimenda pública a Barbosa por parte de seus pares, pois sua “demonstração de falta de civilidade” teria contribuído [sic] de maneira ímpar para prejudicar a credibilidade do STF, como se essa suposta credibilidade não seria afetada pelos desmandos de seu presidente, mas pelas reações aos mesmos.

Nenhuma palavra sobre a descompostura da suprema-dona da Corte. Sua excelência até deu gargalhadas de deboche durante a histórica sessão, certamente uma demonstração ímpar de civilidade, condizente com a “liturgia” daquele tribunal. A Revista Consultor Jurídico (Conjur), do mesmo grupo do Estadão e um dos mais prestigiados portais jurídicos do país, também destoou do seu jornalismo normalmente isento e objetivo.

A reportagem em nenhum momento dirigiu críticas a Mendes ― protagonista de escândalos como as solturas de criminosos do colarinho branco ― e ridicularizou Barbosa, chamado pejorativamente de “JB” e “Joca”, cuja principal contribuição doutrinária teria sido o pedido de vista do próprio voto. Confira: Crise expõe desavença entre JB e seus Pares

A “cobertura” contrasta com o apoio da população às corajosas palavras de Barbosa, mineiro nascido em Paracatu. Ontem (24), em Brasília, estudantes protestaram em frente ao STF (foto).

Rua, presidente!

manoel@patoshoje.com.br

 

Com todas as letras

sábado, 25 de abril de 2009

 com-todas-as-letras-patoblog

 

Há vinte dias, reportagem da Folha de S. Paulo apontava a participação da atual ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, em supostos atos terroristas durante a “ditabranda”. Hoje (25), o jornal assumiu que se baseou em documentos de origem duvidosa.Em artigo no Observatório da Imprensa, sob o título “ERRAMOS” ENVERGONHADO, Luiz Antonio Magalhães afirma que “o correto seria dizer que a ficha é falsa, pura e simplesmente”.

A rigor, se é verdade que não havia elementos suficientes para sustentar a autenticidade do documento, tampouco surgiu PROVA de sua falsificação, sendo igualmente precipitado afirmar que a “Folha publicou ficha falsa de Dilma”, como fez o articulista.

Entretanto, o título da matéria, “Autenticidade de ficha de Dilma não é provada”, de fato revela a crônica resistência do jornal em assumir os erros. Diante do tamanho do equívoco, divulgado na primeira página, o título deveria ser “FICHA DE DILMA POSSIVELMENTE É FALSA” ou “SURGEM INDÍCIOS DE FALSIDADE DA FICHA DE DILMA”.

manoel@patoshoje.com.br

Um jornal a serviço da ditabranda

terça-feira, 14 de abril de 2009

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É pública e notória a estreita ligação entre as Organizações Globo e os autores do golpe de Estado ocorrido há 45 anos. Menos conhecido, porém igualmente sórdido, é o apoio do Grupo Folha ao regime que assombrou o país naquele período.

Enquanto a concorrência sofria todo tipo de ameaças e agressões dos militares que tomaram o poder, a Folha prosperava. Em caderno comemorativo dos 80 anos do jornal, Janio de Freitas, articulista e membro do Conselho Editorial da Folha de S.Paulo, reconheceu que foi durante a ditadura que a Folha “começou a sair do limbo em que vivia”, mas atribui o fato à “audácia” do jornal em assumir um “empreendimento jornalístico autêntico”, após o qual “a liberdade de imprensa começou a alargar-se”.

“No dia em que se escrever a história séria do regime militar e de seu encerramento, não poderá ser esquecida a contribuição da maneira determinada e corajosa com que Octavio Frias de Oliveira [publisher da Folha] assegurou o acesso à Folha da palavra de pessoas banidas por toda a mídia”, afirmou Freitas.

A Folha de São Paulo teve ativa participação no período de repressão militar no país. Mas ao contrário do que hasteia, não lutou do lado da democracia.

Mas o título do artigo de Freitas, “Tal pai, tal Folha”, é deveras feliz. O jornalista Costábile Nicoletta provou na própria pele essa constatação. Editor-chefe do jornal Meio&Mensagem (M&M), Nicoletta publicou por ocasião da morte de Octavio Frias um perfil da figura intitulado “Nem tão liberal assim”. Desnecessário dizer que foi a última edição de M&M sob a direção de Nicoletta, que foi demitido no dia seguinte.

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Fossem outros tempos, a indiscrição de Nicoletta poderia ter-lhe custado mais do que o cargo. As Vans da Folha usadas para tranportar o jornal também eram usadas para o transporte de torturados e até de cadáveres sem levantar suspeitas. A técnica foi importada da Europa: os nazistas atraíam os judeus até furgões supostamente adaptados com equipamentos médicos, onde seriam submetidos a “exames” de raio-x. As unidades móveis de raio-x eram na verdade câmaras de gás ambulantes, e as vítimas eram exterminadas ali mesmo.

O texto de M&M corroborava as declarações de Mino Carta à revista Caros Amigos, dois grandes nomes da imprensa brasileira. Carta disse que a Folha, diferentemente da propalada pluralidade, sempre serviu à ditadura e cresceu graças às benesses do poder: “Até hoje o jornal, que gosta de posar de democrata e transparente, tenta esconder esse período macabro, que revela todo o seu caráter de classe e a sua postura direitista”.

Segundo M&M, as críticas de Mino são pertinentes. “Logo ao comprar a Folha, [Frias] teria feito do jornal um instrumento a serviço da conspiração golpista”. Estampava manchetes sensacionalistas contra o “perigo comunista” e assinava editoriais contra a “corrupção e a subversão”, apoiando o governo que, segundo a Folha, era “sério, responsável, respeitável e com indiscutível apoio popular”.

Não é à toa que recentemente (17/02) a Folha até se referiu aos anos de chumbo carinhosamente como “ditabranda”. Ou seja, entre 1964 e 1985 o Brasil não teria experimentado uma ditadura propriamente dita.

Leitores protestaram com veemência, entre os quais os professores Maria Victoria de Mesquita Benevides e Fabio Konder Comparato. Este escreveu: “O autor do vergonhoso editorial de 17 de fevereiro, bem como o diretor que o aprovou, deveriam ser condenados a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro, cuja dignidade foi descaradamente enxovalhada. Podemos brincar com tudo, menos com o respeito devido à pessoa humana.”

Otavio Frias Filho (Otavinho), que teria aprovado o editorial, publicou furiosa resposta em forma de “Nota da Redação”, em que chama os professores de CÍNICOS e MENTIROSOS:

“Nota da Redação - A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua ‘indignação’ é obviamente cínica e mentirosa.”

A Folha não informou aos leitores fatos que comprovariam tais acusações. Será que para se ter o direito de repudiar o Estado de exceção instalado pelos militares em nosso país após a derrubada do presidente eleito, antes é preciso manifestar o mesmo em relação aos outros países? Por enquanto, “óbvio” mesmo é a gratuidade da agressão por parte da Folha.

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Somente em 7 de março, quase um mês depois, é que Otavinho se retratou pelo uso do termo ditabranda. E assim não em virtude de um arrependimento sincero, mas fruto de uma decisão comercial visando amenizar o estrago que o episódio causou à imagem do jornal, e porque uma multidão protestou em frente à sede da empresa, fato que repercutiu em todo o país e no exterior.

Segundo Otavinho, “o uso da expressão [sic] ‘ditabranda’ foi um erro. O termo tem uma conotação leviana que não se presta à gravidade do assunto. Todas as ditaduras são igualmente abomináveis”.

No entanto, na mesma oportunidade o diretor de Redação voltou à carga contra Benevides e Comparato: “Para se arvorar em tutores do comportamento democrático alheio, falta a esses democratas de fachada mostrar que repudiam, com o mesmo furor inquisitorial, os métodos das ditaduras de esquerda com as quais simpatizam”.

Primeiro Benevides e Comparato eram apenas omissos. Agora, ambos foram promovidos a “simpatizantes” do goberno cubano. Novamente, Otavinho não revela as provas das acusações imputadas, mas mesmo que fosse verdade, se não assistisse razão aos professores acerca da “ditabranda” da Folha, por que diabos esta assumiria que o uso do termo foi um erro, o qual “tem uma conotação leviana que não se presta à gravidade do assunto”? Em que isso desfere do conteúdo do protesto feito pelos professores? Seguindo a mesma lógica da Folha, com que moral ela vem desqualificar os professores se ela própria, muito mais que omissa e simpatizante da ditadura, colaborou direta e voluntariamente com a mesma?

Como se não bastasse, ao contrário do que afirmou Otavinho, Comparato condenava, sim, o regime de Cuba. A crítica de Comparato (publicada na própria Folha, em 2001), foi resgatada por um leitor e encaminhada ao ombudsman. Segue trecho:

“…Ao apontar em sua entrevista a experiência política cubana como exemplo a ser seguido pelos países subdesenvolvidos, especialmente o Brasil, o ilustre professor [François Chesnais] prestou um desserviço àquela nobre causa. A mundialização humanista, pela qual lutamos, funda-se no respeito integral à democracia e aos direitos humanos, caminho que, infelizmente, não tem sido seguido pelo governo cubano. Fábio Konder Comparato, professor titular da Faculdade de Direito da USP (São Paulo, SP).”

Diante de tantas incoerências e mentiras, o ombudsman, supostamente pago para defender o interesse dos leitores, foi todo elogios e sabujice festejando a pseudoretratação:

“No domingo, pela primeira vez que eu tenha memória, um jornal admitiu erro de opinião. Foi a Folha, neste episódio. Isso demonstra como avançou a relação entre imprensa e sociedade neste país.”

Em que momento a Folha se redimiu da falsa acusação de que Comparato “jamais” teria criticado o regime cubano?

E mais: o grande número de manifestantes, “evidencia tanto o poder de convocação dos promotores do evento quando [sic] a importância do jornal”, escreveu o ombudsman, numa tentativa de abrandar os fatos. A Folha também tentou desqualificar abaixo-assinado em repúdio ao jornal que circulou na internet, colocando em dúvida sua autenticidade.

Ainda sobre a manisfestação, o atual ombudsman destacou seu caráter pacifista: “Não faz muito tempo, alguém que discordasse das opiniões expressas por um jornal podia juntar uma turba e destruí-lo fisicamente. A isso se chamava ‘empastelamento’. Este jornal, quando era Folha da Manhã e Folha da Noite, foi vítima de tal agressão em 1930″.

Curiosamente, o ombudsman não se lembrou, mas há ainda menos tempo (década de 70) grupos armados incendiaram vans da empresa, e não devido a divergências de opinião. A Folha divulgava a morte de “terroristas” em supostos confrontos com a polícia quando na verdade se encontravam presos, sob tortura. As falsas notícias serviam para encobrir os assassinatos e prisões ilegais.

O articulista Marcelo Coelho também recorreu à memória para acudir seus patrões:

“Há pelo menos 30 anos, a ‘Folha’ reprova o autoritarismo. Teve, se não me falha a memória, papel importante na luta contra o regime militar. Se quisesse reabilitar aquele período, teria feito isso explicitamente. Obviamente, não teria nenhum interesse em fazê-lo, e não teria nenhuma razão se o fizesse. O que me parece errado nos protestos contra o uso de ‘ “ditabranda‘ pela ‘Folha‘ é que se tomou um erro do editorialista como se fosse sinal de coisa que não existe.”

Ora, fosse uma simples palavra mal empregada pelo editorialista, a Folha a teria retificado na primeira oportunidade. Em vez disso, reforçou o uso do neologismo “ditabranda” nos seguintes termos: “Nota da Redação - Na comparação com outros regimes instalados na região no período, a ditadura brasileira apresentou níveis baixos de violência política e institucional.”

Convenhamos se isso não é querer reabilitar aquele período, como a Folha poderia ser mais explícita?

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No último dia 5, o “Domingo Espetacular” (Rede Record), exibiu reportagem sobre a colaboração da Folha nas ações do DOI-Codi, órgão de inteligência e repressão durante o governo militar.

Como de costume, a Folha acusou o bispo Edir Macedo de usar a emissora na tentativa de “intimidar” o jornal:

“Durante 13 minutos, a emissora de TV usou depoimentos de vítimas da ditadura militar (1964-1985) para repetir críticas ao termo ‘ditabranda’, empregado recentemente em editorial da Folha e que o jornal retificou a seguir.”

Como a própria Folha ensinou em célebre campanha, é possível pregar um monte de mentiras dizendo só uma parte da verdade. A reportagem da Record não se limitou a criticar o emprego do termo “ditabranda”. A Folha omitiu, mas a Record também transcreveu as agressões dirigidas a Comparato e Benevides, perante os quais o jornal nunca se retratou, muito pelo contrário.

A Folha também não negou os depoimentos de ex-prisioneiros da famigerada Operação Bandeirantes, da qual seria cúmplice. Em vez de rebater as graves denúncias da emissora, Folha ocupou o espaço para se dizer vítima de insistentes ataques da Igreja Universal. Quem cala, consente.

Em seu artigo de domingo, 13, o sempre complacente ombudsman não escreveu uma única linha sobre o assunto. Então, quem de fato são os “democratas de fachada”, os cínicos e mentirosos nessa história?

manoel@patoshoje.com.br

O primeiro humanista

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

o-humanista-patos-blog1

Lançado nesta semana, no Unipam, novo livro de Luís André Nepomuceno situa Patos de Minas mais uma vez no cenário literário nacional.

Rico em informações de interesse de estudantes, professores e pesquisadores da área de História, Filosofia e Letras, “Petrarca e o Humanismo” (Editora Edusc, 280 p.) reúne vários artigos, alguns já publicados e outros inéditos, acerca do notável poeta e escritor italiano que revolucionou a mentalidade eclesiástica medieval, opondo-se às principais correntes filosóficas de seu tempo (como o tomismo e o aristotelismo).

Segundo Luís André, os ensaios são uma tentativa de se aprofundar nas conceituações sobre Humanismo e Renascimento, analisando o impacto do pensamento de Francesco Petrarca (1304-1374) - o “primeiro homem moderno”, na definição de historiadores franceses - nas discussões contemporâneas:

“Petrarca propôs, pela primeira vez, a reconquista dos autores do classicismo greco-latino, na compreensão de que o pensamento clássico poderia ser renovado e readequado a novos modelos e circunstâncias da modernidade.”

O autor é professor de Literatura Portuguesa e Literaturas de Língua Inglesa do Centro Universitário de Patos de Minas, Doutor em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas e ficcionista. “Petrarca e o Humanismo” é seu quarto livro publicado.

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Manchete genial da lavra do jornal Folha Patense:

“MP ENTRA COM AÇÃO CONTRA VEREADOR QUE QUER SORTEAR VAGAS DE ASSESSORES, MAS ELE NÃO CONCORDA.”

De fato, seria bastante natural que o vereador pactuasse com a ação movida pelo Ministério Público. Por que alguém não concordaria em ser processado, afinal?

manoel@patoshoje.com.br

“P” DE PLAGIANDO A SÚPER

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Sob o título “Q” de quebrando recordes, o suplemento infantil do jornal Folha de S.Paulo, a Folhinha (que completa 45 anos hoje) informou que a palavra RECORDE “perdeu seu significado original, que é ‘registro’, para virar, em grandes competições, algo como ‘a busca pela superação do limite’” (02/ago/08, pág. 07).

O jornal copiou trecho da reportagem de capa da Superinteressante, revista da Editora Abril, de 12 anos atrás: “A palavra inglesa record (registro) perde o sentido original para significar a busca pela superação do limite” (jul/96, pág. 59). A Folha, que nem sempre pauta seu jornalismo pela ética, não citou a fonte.

Mau jornalismo à parte, o vocábulo inglês “record”, etimologicamente, tanto tem o sentido de “registro” quanto de “um melhor desempenho atestado”, “uma estatística insuperada” (Houaiss). Logo, a palavra não perdeu seu significado original, e tampouco adquiriu o sentido de “busca pela superação do limite”.

Tanto que, logo em seguida, quando a própria Folha faz menção aos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, em que “foram quebrados 64 recordes olímpicos e 27 recordes mundiais”, fica claro que os limites esportivos propriamente ditos é que foram quebrados, e não a busca pela superação dos mesmos.

Pode-se dizer, no entanto, que, atualmente, o substantivo não mais significa registro em sentido amplo, restringindo-se ao registro do último melhor desempenho- ao mesmo tempo em que “quebra” (”rompimento”) equivale a superação. Por exemplo, o velocista jamaicano superou o melhor desempenho mundial anteriormente registrado nos 100 m rasos ou, simplesmente, o jamaicano quebrou o recorde mundial nos 100 m rasos.

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Um prezado leitor apontou impropriedade gramatical no post anterior, qual seja: REFERIR, na frase “o português da campanha não é melhor do que a imagem a que se referem”, deveria estar grafado no singular, “pois o sujeito de tal verbo é ‘Associação de Defesa da Propriedade Industrial (Adepi)’”.

A concordância está correta. É perfeitamente possível o verbo no plural da mesma forma que ESTAR, na frase que encerra o mesmo artigo, não concorda com “pessoal” (sujeito da frase anterior): “É isso que ESTÃO ensinando para os filhos deles?”. Um exemplo retirado do filme Obrigado por não fumar (EUA, 2005): “O tabaco está ganhando a guerra. ELES USAM desenhos e símbolos para atrair nossas crianças”.

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Outro leitor afirmou que o aludido artigo é a favor da pirataria e contra o direito de autor. O leitor atento verificará que somos, na verdade, favoráveis ao livre acesso à cultura e contrários à manipulação da informação.

manoel@patoshoje.com.br

Habeas copus!

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Na página <Marrecos Paturebas> , nesta semana, o professor Paulo Alex Carvalho chama atenção para reportagem de capa do jornal Folha Patense, de 19 de julho:

“LEI SECA”: AVANÇO PARA UNS E EXCESSO PARA OUTROS.

“Se você gosta de beber e dirigir discuta com seu advogado para ele te orientar qual a melhor atitude tomar diante do policial quando você for pego”, aconselha o semanário.

Ou seja, seria papel do advogado orientar o cliente antes da prática de crimes. É a Folha Patense em defesa da criminalidade preventiva!

O delinqüente receberia orientação de um profissional antes de consumar um assalto, do mesmo modo que o funcionário público antes de aceitar uma propina, e assim por diante.

Ainda de acordo com o jornal, “o crime de embriaguez é previsto no Código de Trânsito Brasileiro”. Ora, o CTB não prevê “crime de embriaguez”. Embriagar-se continua permitido, desde que o ébrio não dirija, oferecendo risco concreto à segurança das vias públicas.

Ainda que o cidadão, embriagado, cause escândalo ou ponha em perigo a segurança própria ou de terceiros não se configura crime, mas mera contravenção penal (Lei 3.688/41, Art. 62)

Tanto não é embriaguez o crime previsto no Código de Trânsito que o condutor pode ser preso sem estar embriagado, bastando uma concentração de álcool no sangue equivalente a dois chopes, ou “a influência de qualquer outra substância psicoativa que determine dependência” (Art. 306, CTB).

Por fim, a embriaguez é crime estritamente militar (assim como a deserção), cometido por militar em serviço ou que se apresenta para prestá-lo (Código Penal Militar, Art. 202).

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