Não furtarás

 

No mundo inteiro, é comum gente de todas as religiões desvirtuar a palavra e o nome de Deus, utilizando-os para fins nada divinos. Políticos empregam-nos em seus discursos para iludir e arrebanhar eleitores, empresários chegam a adotá-los em slogan para fidelizar clientela. Mas fato recentemente noticiado na capa do jornal Folha Patense é o cúmulo do sacrilégio:

“RAPAZ USA ORAÇÃO PARA ENTRAR E ROUBAR RESIDÊNCIAS”

Imediatamente, vem-nos à mente o flagrante de um bandido posto de joelhos ante o oratório, pedindo a santa proteção antes de partir para mais um dia de delinquências e iniquidades.

O subtítulo, porém, logo esclarece: “Ele distraía as vítimas com pregação”. Soberboso da própria criatividade, o redator repetiu a manchete na página interna.

Os verbos entrar e roubar, todavia, têm regências diferentes. No caso, o primeiro é transitivo indireto (preposicionado); o segundo, transitivo direto (sem preposição). Se o rapaz entrou em residências, onde está a preposição (em) que liga o verbo (entrar) a seu objeto (residências)?

A frase que consta no jornal é um desatino idêntico a “rapaz usa oração para roubar e ENTRAR RESIDÊNCIAS”, forma admissível apenas em textos literários.

De acordo com o constante no corpo da reportagem, a manchete ainda traz outra incorreção (a pontuação é um caso à parte; na Folha, você sabe, eles não têm noção alguma de como usar pontos e vírgulas corretamente):

 

Conversando levava as vítimas para um cômodo da casa e as distraía enquanto isso, a companheira tirava os objetos menores e fáceis de serem carregados.

 

Sucede que o crime de ROUBO se configura quando o autor subtrai um bem mediante violência física ou ameaça grave contra as vítimas (Código Penal, art. 157), o que não se verifica na ação do falso pregador.

 

A norma penal condizente ao fato noticiado (a denominada subsunção) é o artigo 155, §4º, incisos II e IV: FURTO QUALIFICADO (subtração de bem mediante fraude, com a participação de mais de uma pessoa).

 

Uma forma simples e correta para a manchete da Folha Amadorense seria FALSO PREGADOR FURTAVA RESIDÊNCIAS. Que o mesmo entrava nas residências já está implícito, sendo desnecessário dizê-lo. 

 

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A expressão “DENÚNCIA ANÔNIMA”, pela qual a mídia reporta ao episódio envolvendo o deputado estadual Elmiro Nascimento, não é apropriada.

Tecnicamente, DENÚNCIA é a acusação oferecida pelo Ministério Público nos crimes de ação penal pública. Jamais será anônima. Nos crimes de ação penal privada, a peça de acusação se chama QUEIXA-CRIME, na qual o ofendido (querelante) também deve estar plenamente identificado.

Nesta semana, a Câmara de Dirigentes Lojistas de Patos de Minas (CDL) abriu espaço para Elmiro esclarecer a acusação ―  contratações indevidas de assessores pagos pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais.  A entidade realiza reuniões públicas todas as terças-feiras, em sua sede.

Na oportunidade, Elmiro se disse agradecido pelo convite e afirmou ser normal ter assessores parlamentares trabalhando em Patos de Minas, sua base de atuação, e os que porventura prestam serviço à sua empresa são registrados de acordo com a legislação trabalhista, que permite a contratação de uma pessoa por vários empregadores.

O deputado se diz vítima de “perseguição política” e acusou, sem nominar, um site patense noticioso, que estaria denegrindo sua imagem com informações inverídicas. Ao colunista o deputado disse que se referia ao Patos Hoje.

O jornalista Mauricio Rocha, responsável pelo portal, não estava presente à reunião, mas negou haver qualquer interesse de sua parte em denegrir a imagem de alguém. A pedido do deputado, Mauricio chegou a retirar do site reprodução do jornal Estado de Minas sobre a suposta irregularidade na contratação dos assessores. 

manoel@patoshoje.com.br

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7 comentários para “Não furtarás”

  1. Pantaleão Nunes disse:

    Caro Manoel, sobre os erros na reportagem da Folha Patense nem irei comentar, pois já estão muito bem explicados.

    O que me irrita é o fato do Sr. Elmiro desdenhar da “denúncia anônima”, como se fosse algo muito fútil e sem relevância alguma. Em tempos que as polícias clamam por denúncias vindas de nós, cidadãos, me aparece uma figura política, formadora de opinião, que tentar jogar por água abaixo o alto valor das denúncias anônimas. E outra, Sr. Elmiro, quem não deve, não teme, caso as denúncias não sejam verídicas, cabe ao senhor, como homem público, provar o contrário.

    E Manoel, parabenizo-o pelo seu apurado senso crítico, tenho a opinião de que em Patos todos se acostumaram às coisas feitas pelas metades, um ar de amadorismo que me incomoda, acham tudo normal, e temos mais é que criticar e apontar as oportunidades de melhoria aonde quer que seja.

    Saudações.

  2. João disse:

    Por mim, a pontuação da Folha está correta [risos].

    Com que expressão podemos substituir “denúncia anônima”?

  3. Olá, Pantaleão. Grato pelas cordiais considerações. Não sou a favor do anonimato, principalmente quanto a dossiês motivados por rixas políticas, mas concordo que de outra forma a sociedade jamais tomaria conhecimento de muitos fatos relevantes.

    Como você ressaltou, muitos crimes são solucionados pela polícia graças a tal expediente, legitimado mesmo nas democracias tidas como avançadas, a exemplo da norte-americana. Veja-se o caso da fonte anônima (cuja identidade só seria revelada após três décadas) responsável pela descoberta da ligação entre a Casa Branca e o escândalo Watergate, que culminou com a queda do presidente Nixon. Abraços.

  4. Caro João, a menos que “Conversando” fosse o sujeito da oração (com o qual concordaria o verbo “levava”), eu colocaria uma vírgula entre ambos, e um ponto após “distraía”.

    Em uso formal, uma opção para a referida expressão seria “DELAÇÃO ANÔNIMA”. Embora lexicógrafos registrem delação e denúncia como sinônimos, o segundo é um termo jurídico de significado restrito. Abraços.

  5. Marcelo Araújo disse:

    Putz, essa Folha Patense é o pior jornal que já vi! Para ficar ruim precisaria melhorar muuuuito….

  6. Hebert disse:

    Parabéns pelo Blog. Raramente se vê conteúdo tão bem elaborado e tão gostoso de se ler. O único porém que cito é ausência de um meio mais fácil de segui-lo. Não tenho tempo para ficar acessando um a um todos os Blogs de que gosto, por isso uso os feeds deles, principalmente através do Google Reader. Creio que isso poderia ser implementado facilmente no seu Blog, o que me ajudaria a continuar apreciando as suas postagens. De toda forma, parabéns, o mais importante e melhor de um Blog você já tem: conteúdo.

    Se aceita dicas, aí vai uma:

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  7. Muito obrigado, Hebert. Conferi o site que você indicou, por sinal muito bom, e assim que tivermos efetuado as mudanças que você sugeriu entro em contato pelo seu email. Abraços!

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