Arquivo de fevereiro de 2009

A emenda e o soneto

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Surpreendentemente, a Comissão Revisora da Ordem dos Advogados do Brasil, seção Minas Gerais, fundamentou com o artigo 1.102 do Código de Processo Civil (CPC) a resposta da questão da prova objetiva apontada na coluna de 13/12: A FIANÇA, A HIPOTECA E O PENHOR CONSTITUEM DIREITOS REAIS. A FIANÇA NÃO É UM DIREITO REAL.

Não bastasse injustificável o não reconhecimento da nulidade (há duas proposições contraditórias entre si), a matéria não é de direito processual, de que trata, evidentemente, o CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL.

Pior: além de não guardar qualquer relação com direitos reais, o indigitado artigo 1.102 foi expressamente revogado, em setembro de 1996, pela lei de arbitragem. O rol dos direitos reais (propriedade, hipoteca, penhor, habitação…) encontra-se no CÓDIGO CIVIL, publicado em janeiro de 2002 (art. 1.225).

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A pedido de um leitor, segue a localização dos cinemas citados na coluna (em ordem cronológica): CINE OLINTA (Av. Getúlio Vargas, atual auditório da Rádio Clube); CINE TUPÃ (rua Major Gote, na altura do n° 793); CINE GARZA (rua Major Gote, em anexo ao Roza Hotel); CINE RIVIERA (rua Olegário Maciel, em anexo ao Patos Social Clube).

O par de projetores cinematográficos do RIVIERA hoje serve a duas modernas salas (1 e 2, do Cinemais) no Pátio Central Shopping. O letreiro do OLINTA ainda pode ser visto na calçada da Rádio Clube.

Segundo Marcos Queiroz Garcia, o primeiro cinema de Patos de Minas, CINE GLÓRIA, localizava-se na rua General Osório, possivelmente na altura do atual n° 184.
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O apagar das luzes - III

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Cinemas foram objeto de culto dos patenses. Os mais assíduos os frequentavam praticamente todos os dias. Também eram ponto de encontro para permuta de gibis e paqueras. No Cine Tupã, nos dias mais concorridos, as crianças chegavam cedo às sessões de Flash Gordon, Tarzan, Zorro, Lassie, e se acomodavam no chão após vender seus lugares a casais de namorados.O empresário Mário Garcia Roza construiu o Cine Garza (acrônimo de Garcia Roza) em 1960. Sete anos depois adquiriu o Cine Riviera, o qual passou a integrar a Rede Cineminas, com salas em outras doze praças, como João Pinheiro, Patrocínio, Bom Despacho e Itaúna.

Garza e Riviera (nome inspirado na região litoral do Mar Mediterrâneo, no sul da França - país em que seu fundador fora criado - onde se localiza Cannes, cidade do Festival Internacional do Cinema) traziam programações diferenciadas. Este privilegiava filmes de arte, musicais e clássicos. Já as exibições no Garza eram mais populares: Mazzaropi, filmes de ação, faroestes e sagas bíblicas.

Durante a Semana Santa o comércio não ficava aberto, e da zona rural vinham caravanas especialmente para assistir à chamada Vida de Cristo. Marcos Garcia ajudava seu pai no Garza desde menino e se lembra de que as paredes ficavam molhadas devido à concentração de fiéis que insistiam em permanecer apinhados no hall e nos corredores, aguardando sua vez. Sessões começavam às nove da manhã e seguiam até meia-noite. As filas se formavam de madrugada e dobravam as esquinas.

Algumas senhoras se recusavam a ir embora ao término das sessões. Agarradas aos seus terços, ajoelhavam-se diante das telas em adoração às imagens sobrepostas. Para dar conta da demanda, os atendentes no barzinho se revezavam em várias turmas e simplesmente jogavam o dinheiro atrás do balcão. O piso ficava forrado de notas e moedas, só recolhidas passado o tumulto.

A projeção de um filme, dividido em rolos de seiscentos metros, exigia grande habilidade, concentração e resistência física. O manuseio ininterrupto das películas, afiadas como lâmina, fazia com que a ponta dos dedos dos operadores tivesse aspecto de couro de rinoceronte. Era preciso o uso de dois projetores alternadamente a fim de que o público, bastante exigente, não percebesse os cortes. Nas roletas, agentes das distribuidoras fiscalizavam todas as meias e inteiras entregues ao porteiro, contabilizavam cada centavo e saíam das bilheterias carregando sacos contendo a maior parte da arrecadação.

Outras igrejas surgiram e os católicos que mantinham aquela tradição foram desaparecendo. Não mais atingindo as severas metas de público estabelecidas pela indústria, monopólio de judeus, aos poucos todas as unidades da rede foram fechadas. Exceto o Riviera.

Na década de 80, seus 1.370 lugares foram reduzidos a 1.100 para ampliação do palco. Progressivamente, sessões de filmes cediam espaço para palestras, shows musicais, peças de teatro, balés e até posse de prefeito. Garcia Roza faleceu há três meses, aos 84 anos, sem concretizar o sonho de rever as cortinas do Riviera se abrirem ao som de Rendez-vous 4, com Jean Michel Jarre.
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