Arquivo de janeiro de 2009

O apagar das luzes - II

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Instintivamente, Eny Rodrigues largou o que estava fazendo, pegou a bicicleta e partiu rumo ao Centro. Duas de suas filhas trabalhavam próximo ao Riviera e corria o temor de que o fogo se alastrasse para as lojas.A professora encontrou as filhas em segurança, mas viu muitas pessoas desesperadas na porta do cinema e pensou no pior. Ficou surpresa ao descobrir que não choravam a perda de vidas humanas. O sentimento era em relação ao próprio cinema, que fazia parte de suas vidas e cuja existência significava muito para a comunidade.

O engenheiro Caio César Gonçalves, à época presidente da Associação Comercial (Acipatos), e Eugênio Melo Ribeiro, então presidente da Fundação Cultural do Alto Paranaíba (Fucap), encabeçaram um ambicioso plano de transformação do Riviera em centro de lazer, entretenimento e atividades culturais. Com o projeto em mãos, procuraram o poder público local e a iniciativa privada. Entretanto, estes manifestaram não dispor de capital para levar adiante a idéia.

Anda assim, Eugênio sonhava comprar o local com recursos das leis de incentivo à cultura e transformá-lo num espaço cultural, além de compensar os seus proprietários, que mantinham o cinema muito mais por amor à arte do que por interesse comercial. “Mas, ao contrário do que diz a música, o sonho acabou”, diz Eugênio, que atravessou várias madrugadas no Riviera montando e desmontando iluminação e cenários ao som dos bailes do Patos Social, enquanto, nos bastidores, seus filhos dormiam em colchões improvisados sobre caixas de refletores.

“Nós éramos uma família e ali era a nossa casa”, confirma César Roberto Ferreira, referindo-se ao local em que trabalhava desde 1980 e ao qual dedicava a maior parte do seu tempo.

Lembra-se, emocionado, da chegada da Semana da Criança, quando o Riviera ficava aberto o dia todo e o passe era livre para as escolas. Professoras acompanhavam os alunos - para muitos, a única oportunidade que tiveram na vida de entrar em um cinema. “O incêndio destruiu sonhos de muita gente”, lamenta César.

Em seus anos de ouro, o Riviera estava entre as maiores e mais modernas casas do gênero do interior. O projeto e a tecnologia de ponta foram trazidos da Europa pelo líder político Virmondes Afonso de Castro, que também buscou em outros Estados construtoras à altura do empreendimento. Integrantes da orquestra sinfônica do Palácio das Artes, de Belo Horizonte, ficaram maravilhados com o local, onde também se apresentaram personalidades como Roberto Carlos, Paulo Autran e Arthur Moreira Lima.

Aliás, Patos de Minas é sui generis também neste quesito: enquanto muitas cidades do mesmo porte não tinham nem mesmo uma sala, Patos chegou a comportar, durante quase uma década - entre os anos 70s e 80s - três grandes cines ao mesmo tempo: Riviera, Garza e Olinta.

manoel@patoshoje.com.br

O apagar das luzes - I

sábado, 17 de janeiro de 2009

apagar-das-luzes-patosblog

Uma coluna de fumaça no centro de Patos de Minas quebra a tranquila rotina da população. A princípio, mesmo para espectadores que se aglomeram em volta do quarteirão, o foco do incêndio não está bem definido. Mas de outro ponto da cidade, ao olhar naquela direção e avistar a fumaça, o primeiro nome que vem à mente do fotógrafo José Marcos Gonçalves é o do Cine Riviera.Devido aos eventos de finais de ano - como formaturas e espetáculos - dezembro era o mês em que o Riviera mais recebia público. Duas noites antes do desastre, a casa lotou durante um festival de dança, quando o risco de uma falha no sistema elétrico (provável causa do acidente) é muito maior. E o dia todo, um domingo, ali permaneceram mais de mil pessoas ocupadas com os ensaios, muitas das quais eram crianças.

Mas no 15 de dezembro de 98 apenas três pessoas se encontravam no estabelecimento e nenhuma ficou ferida.

Os bombeiros agem rapidamente. A frente do prédio e a cabine de projeção foram salvas. Todo o restante, porém, - teto e paredes (revestidos de matéria altamente inflamável), palco, cortinas, carpete e poltronas - é inteiramente consumido pelas chamas em menos de uma hora.

Fotógrafo desde os doze anos, José Marcos frequentava o cinema de três a quatro vezes por semana, em geral após o trabalho. Como todo bom cinéfilo, apreciava não apenas os filmes, mas o ambiente, a acústica, a sala de bate-papo, o tradicional passeio na sorveteria antes das matinês de domingo e a ida à lanchonete na volta pra casa.

Chegava a assistir várias vezes ao mesmo filme. Uma das poucas exceções de que se lembra fora um épico, algo como “César, o rei de Roma”, cuja exibição durara seis horas, com intervalo de duas em duas. Mas assistira a “E o vento levou…” por QUATRO DIAS seguidos, mesmo sendo cerca de quatro horas por sessão. Afinal, películas em cores eram uma grande novidade.

Com o advento de videocassetes, DVDs e a expansão da internet e da pirataria, os cinemas foram perdendo espaço. As salas que não são fechadas ficam mais compactas. Subsistem encasteladas em locais onde há grande fluxo de pessoas, como shopping centers, sendo apenas mais um de seus itens de consumo.

O fenômeno é mundial. Nas capitais, os cinemas são vendidos e os imóveis transformados em templos religiosos. Junto com eles se foi a profissão de lanterninha e talvez uma época de mais romantismo, inocência e calor humano.
manoel@patoshoje.com.br