24/08/2012

Animal político

Lívio Soares de Medeiros opina sobre questões políticas.

De certo modo, é óbvio que escrevo este texto em virtude do clima político que o país vive. Contudo, a opinião que darei é tão antiga quanto eu, que só não sou tão antigo quanto a parvoíce de muito eleitor e a desfaçatez de muito político – ou quanto a desfaçatez de muito eleitor e a parvoíce de muito político. Nada de pensar que estou defendendo/atacando candidato “a”, “b” ou “z”. Este texto não é para isso – nem é uma referência (in)direta à política local.

O pensamento aristotélico de que “o homem é um animal político” não implica dizer que devamos ser animalescos ao manejar a política. Contudo, instintos e paixões primitivos são exteriorizados quando as pessoas lidam com ela.
 
É curioso como muitos eleitores se comportam como aqueles torcedores de futebol bobos, “cegos”, radicais e perigosos. Na tentativa de ser o animal político que efetivamente todos devemos ser, esses eleitores acabam prestando um desserviço à causa política e, por fim, ao ser humano como espécie.
 
Todos temos paixões, ímpetos, rompantes. O problema, claro, não é esse. O problema é que a política não deveria ser um jogo movido a pulsões atávicas. Em sentido geral, a essência da política não se faz no Brasil. O que se vê são eleitores cujo fervor só não deve ser maior do que seu radicalismo contraprodutivo.
 
Há uma aparência, um quê, um “status” de comprometimento, de cidadania, mas o que se efetiva é um envolvimento doentio, patológico e patético. Numa profusão de “ideologias”, há até espaço para a religião – mesmo num Estado que, em teoria, é politicamente laico. Idiossincrasias e picuinhas vão se avolumando e a sensatez é pilhada. O animal político se torna uma besta ludibriada.
 
Nesse sentido, sou descrente quanto à politicazinha que tem sido feita na Ilha de Vera Cruz. O que há é um arremedo de política, uma imitaçãozinha barata, “kitsch” e decadente. Quem dera houvesse um maior número de eleitores com uma boa dose de racionalidade e um maior número de políticos com uma boa dose de vergonha na cara – ou um maior número de eleitores com uma boa dose de vergonha na cara e um maior número de políticos com uma boa dose de racionalidade.
 
Nesse balaio torto, para coroar o circo triste, gente que se diz esclarecida e atuante fica rindo dos candidatos durante o horário eleitoral. Hora, deveriam, sim, é estar chorando, tamanha a profundeza do poço de ignorância – de quem está na TV e de quem está diante dela, rindo. Rir disso não é prova de senso de humor, pois nem o riso “salva” o que é deprimente. Não há graça na tragédia.
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Comentários

Vivi Oliveira - 18/09/2012 - 16:59

O que eu gostaria de lhe dizer é exatamente o que o Mário Júlio disse. Nessa tragédia, permita-se encontrar graça. Política não é o meu forte, mas meus candidatos são aqueles que já o são por natureza, pelo que fazem sem mesmo ter uma cadeira pública. Quanto ao resto - salve a máxima - ninguém nunca precisou de restos pra ser feliz. Abraços.

Lívio - 23/09/2012 - 18:10

Oi, Vivi. Só agora vi sua mensagem. Sim, é preciso achar graça em meio às bobagens que há por aí. Preciso mesmo ser menos turrão [riso]. Grande abraço.

Vinicius Mota - 27/08/2012 - 09:46

Primeiramente como é bom entrar no Patos Hoje, mesmo distante, e ver um post seu. Confesso que gostaria de uma certa frequencia. Em seguida, estive na "Patos-Paris", dita em um artigo lido essa semana sobre locomoção de Pessoas com Deficiência, esse final de semana e me deparei realmente com o Circo Armado e me pergunto: seria melhor a comédia, a violência da cidade vizinha, onde ja presenciamos tiros ou uma coisa pacata de outra?!?! Diversos questionamentos, porém, como foco em Patos, acredito estarem levando a política em sua prática, também como um brincadeira.

Lívio - 01/09/2012 - 17:17

Obrigado mais uma vez, Vinicius. E torçamos para que nossa "arma" venha a ser calibrada. E posso imaginar a cara do candidato quando se viu "forçado" a debater. Poucos deles sabem o que estão dizendo - e boa parte deles não se preocupa muito mesmo com o que está dizendo...

Vinicius Mota - 31/08/2012 - 16:53

Um dom maravilhoso seu Livio. Admiro. Em outros momentos comentei que ja fui seu aluno. E acredito, tem temas sim, talvez tão polêmicos como esse. Quanto a nossa "arma", talvez ela esteja precisando ser calibrada. Os jovens, visto como futuro da nação, estão cada vez mais distantes desse tema. Recentemente um candidato me pediu voto pelo face e logo de cara pedi que me enviasse sua proposta, ficou assustado e claro iniciamos um breve debate. rs.

Lívio - 27/08/2012 - 22:07

Olá, Vinicius. Obrigado. Não há a frequência nas publicações porque eu geralmente não tenho o que dizer. Quando acho que tenho, publico no espaço. Com relação à política, nossa "arma" é o voto, não é mesmo? Grande abraço.

Mário Júlio - 26/08/2012 - 09:01

Medeiros, permita me discordar da última parte de seu artigo.Dia desses assistindo ao horário eleitoral destinado a propaganda de candidatos a vereador, fiquei dividido entre descrença e risos. Optei por rir pois não encontrei melhor maneira de manifestar o sentimento pelo que via.Se não fosse riso, talvez lágrimas...deprimente. Não diz o ditado que rir é o melhor remédio. Deixa de azedume, solte umas boas gargalhadas."O circo está armado e você faz parte dele".

Lívio - 26/08/2012 - 15:13

Fala, Mário. Beleza? Gostei demais da palavra "azedume". De fato, padeço disso e deixo de ver graça no que pode ser digno de riso. Talvez eu devesse tentar a válvula de escárnio, que é bem-vindo em tais ocasiões. Um grande abraço e obrigado pelo comentário.

James - 24/08/2012 - 22:13

Boa noite, Lívio. Salta aos olhos os expurgos do olhar crítico. Concordo perfeitamente com o explicitado. Thomas Hobbes definiu com maestria a postura do homem ao dizer: " O homem é o lobo do homem". Abraço e até breve.

Lívio - 25/08/2012 - 09:03

Olá, James. Obrigado pelo atencioso comentário.

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